Púrusha quarta-feira, dez 16 2009 

Segundo o Sámkhya, filosofia especulativa naturalista que surgiu na Índia há 5000 anos, existia no início do cosmos apenas uma partícula condensada de consciência, que eles chamaram de Púrusha, que se traduz por homem.

Essa essência absoluta não era afetada pelas dualidades que vivemos em nossas vidas. Para ele não existia certo nem errado, claro ou escuro ele somente observava e simplesmente era, não interagia, nem era afetado por coisa alguma. Para o Púrusha os conceitos não se dividiam em pares de opostos, ele permanecia sendo o que era eternamente em todos os lugares que existiam.

Em um determinado momento, essa essência de consciência sentiu necessidade de se manifestar. Nenhum texto relata a razão pela qual esse Púrusha que era livre, perene, estático e apenas observava, sentiu essa vontade de modificação e nem quando isso ocorreu. Temos que aceitar o fato que alguns acontecimentos vão além do que nossa mente racional pode compreender, e aceitar que simplesmente assim foi.

Tanto o Sámkhya quanto o Yôga não se preocupam em responder tais questões e sim libertar o EU de tal relação. O profano não consegue perceber que seu Púrusha é estável e que apenas observa. Ele se depara constantemente com a agitação do seu emocional e não pode conceber que há por trás disto um ser perene e eterno, inabalável pelas situações externas. O Púrusha reflete-se nas emoções e nos pensamentos, muito embora ela seja essencialmente diferente deles. Tal relação cria a maior de todas as ignorâncias, a confusão do ser com o não-ser, em outras palavras da Prakriti com o Púrusha.

O que ocorre é que o reflexo do Púrusha parece agitar-se quando se envolve com a Prakriti, assim como o reflexo da lua vista na água do mar faz parecer que ela se movimenta constantemente. Muito embora o SER não faça parte da Natureza, ele se manifesta através da consciência que servirá sempre como uma bússola nos conduzindo para o que nos fará sentirmos melhor e mais perto da libertação.

Quando somos crianças nos sentimos mais perto desta manifestação real do EU. A educação e a convivência com outras pessoas vão fazendo com que nos distanciemos daquilo que realmente somos e isso invariavelmente gera dor. Dor esta que será um forte alerta de que estamos nos distanciando de nossa essência. Quanto mais dor, mais longe estamos do nosso EU. No entanto, o motivo é realmente intrigante. Por que esse Púrusha, livre e desimpedido acabou gerando algo que modificou totalmente a existência do universo e ainda o prendeu em tal criação? Como esse tipo de consciência está muito acima de nosso intelecto é impossível entender tal conceito por meio de uma ferramenta racional.

O compreenderemos em absoluto apenas quando atingirmos um nível muito elevado de lucidez, onde não há tanta interferência dos fenômenos e assim se torna possível compreendê-lo na totalidade. O que nossa razão pode por ora fazer são especulações que apenas nos aproximarão das constatações feitas pelos antigos sábios sobre as origens do universo.

Entenderemos tudo isto, apenas através de nossa intuição, estado de consciência situado acima da mente.

Poema ao Púrusha

“Vem da sua alma o que é perene. Um arco-íris que fica e uma encantadora beleza que penetra. Passa longe da sua existência o que se esvai o que estraga e extingue-se. A desgastante instabilidade não existe, e dá lugar a um deleite de SER e não de ter ou estar. Estar ao seu lado é travar contato com o que de mais perfeito a natureza conseguiu manifestar. Ou estarão tais atributos de SER acima dela mesma? Não me importarei ou conseguirei desvendar tamanho mistério, me gratifico apenas em me aproximar e existir ao lado teu.”

Por: Daniel De Nardi

Sensação de solidão terça-feira, dez 1 2009 

Os seres vivos continuam vivos por conseguirem se alimentar, reproduzir e se defender. Cada espécie desenvolveu mecanismos próprios para manter sua integridade.

Nas plantas elas criaram perfumes e cores que chamam insetos para a polinização, galhos altos para que suas folhas não fossem comidas, espinhos e tantas outras engenhosidades.

Já os animais desenvolveram um aparato incalculável de ferramentas para sua sobrevivência, com um sem número de adaptações corporais para bem desempenhar sua sobrevivência e reprodução, que não deixa de ser uma forma de sobreviver.

Dentre estes mecanismos de sobrevivência existe o emocional, muito estudado em humanos e primatas. É através deste mecanismo que nós criamos laços que nos mantém unidos em bandos aos quais fomos aprimorando até um nível de complexidade que desfigurou o intuito inicial e hoje chamamos de civilização um amontoado de milhares de dezenas de pessoas que vivem uma sobre as outras, separadas apenas por 20 centímetros de paredes que representam um abismo entre dois seres humanos que cruzam o caminho um do outro todos os dias e o único laço que os une é um cumprimento cordial de bom dia.

Não precisamos de muita coisa para concluir que o que nos une é um conjunto de afinidades que nos reúnem em grupos. A sociedade humana criou uma complexa rede social que extrapola a necessidade básica de sobrevivência. Como nossas colméias são grandes, os únicos inimigos naturais que temos são microorganismos e nós mesmos.

Vírus e bactérias nós não vemos, não consideramos nós mesmos como ameaças, logo, consideramos que não temos predadores e sem eles o vínculo social não tem mais função. Talvez seja por isso que vivemos tão perto e ao mesmo tempo tão longe um do outro.

Contudo, está gravado em nossa programação genética o grupo, a sociedade. Então criamos pequenos grupos de infindáveis coisas. Grupo do trabalho, da família, do clube, do esporte.

Nestes pequenos grupos podemos vemos o mesmo comportamento primata de nossos primos simeos, onde há o líder que guia o bando, os machos ficam exibindo suas habilidades para imprecionar as fêmeas, os mais novos observando os mais velhos para aprender como se faz, entre outras coisas.

Enquanto os simeos fazem isso em um só bando, nós migramos entre vários bandos que preferimos chamar de roda de amigos, pessoal do trabalho e outros nomes que só mascaram a nossa real imagem: somos animais sociais. Inteligentes e super adaptados, mas animais que apesar de toda essa riqueza e abundancia se sente sozinhos. Apesar de poder dormir confortavelmente em uma cama macia sem predadores por perto, apesar de ter comida farta a sua disposição, apesar de estar rodeado de pessoas em todos os lugares. Apesar disso, este indivíduo é capaz de entrar em um recinto cheio de outros humanóides e ainda assim se sentirá sozinho e desconectado.

Este sentimento de desconexão está ligado a nossa suposta segurança dada pela sociedade. A falta de predadores que nos levou a restringir cada vez mais o grupo. Sem a necessidade do bando nos isolamos e não aprendemos como viver em grupos onde um olha o outro e um tira parasitas do pelo do outro.

Fonte: http://swasthya.marcocarvalho.com/tao-perto-mas-tao-longe-uma-teoria/

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